Quem gosta de tapa é lutador de MMA, mulher gosta de romance

 

chicoter

Se você tem namorada, mulher, irmã, mãe, amigas, colegas de trabalho, sabe que o assunto de fevereiro foi a estreia de Cinquenta Tons Mais Escuros, a segunda parte da trilogia soft pornô que já lotou os cinemas no primeiro filme e vendeu mais de 100 milhões de livros.

Fica a impressão que da noite para o dia a pergunta que vale um milhão finalmente tem resposta. Afinal, o que as mulheres querem na cama? Pelo frenesi causado, parece simples: ser amarrada, amordaçada, vendada e levar uns petelecos, enquanto transa. Tudo, claro, em comum acordo com o parceiro.

Mas não foi dessa vez. A ideia de que um batalhão de mulheres tenha se descoberto adepto de chicotes, algemas e quartinhos escuros é simplista demais – além de estapafúrdia – para explicar o que de tão fascinante o senhor Grey, o mocinho meio bandido do filme, faz para deixar mocinhas de todas as idades tão umedecidas.

Sexo, ainda bem, é um dos terrenos mais férteis da criatividade e da loucura humana, e as barreiras continuam a ser derrubadas todos os dias. Tem quem goste de transar com mais de um parceiro, adeptos de golden shower ou da modalidade tão renegada pelos homens, que eu chamo de “uma dedada não dói”.

Até mesmo o mundo sadomasoquista já saiu do escuro faz tempo. Há quem bata ponto em festinhas marcadas pelo Facebook. Mas vamos encarar a realidade, um número enorme de mulheres nunca teve um único orgasmo nem com sexo limpinho e previsível. Dá para acreditar que haja tantas assim mergulhando nas trevas da sacanagem? Não. Quem gosta de tapa é lutador de MMA, mulher gosta é de romance.

O senhor Grey é rico, bonito, inteligente, tem o abdômen trincado e a capacidade de fazer a mocinha gozar só com um tapinha no clitóris. Um talento, levando em conta que tem homem que não sabe nem onde esse botãozinho mágico fica. Mas não é a promessa de uma trepada inesquecível o que faz todas as mulheres parecerem tão afoitas para se envolver com alguém que seduz por meio de força, agressão física e moral.

Pode guardar o chicotinho, a sunga de couro e a máscara do Zorro. Pode deixar na estante o livro do Kamasutra. O que o senhor Grey oferece de sobra em meio a tanta fantasia não são apenas orgasmos múltiplos, mas doses cavalares de algo que falta antes e depois de uma transa: romance. E não tem nada mais eficiente para seduzir e levar uma mulher para a cama – ou para o quartinho de tortura – do que isso.

Na vida real a maioria das mulheres ficaria feliz em gozar, dormir de conchinha e receber uma mensagem no dia seguinte. Mas a reclamação das moçoilas é a de sempre: falta macheza nos moços para demonstrar ternura. Por isso os suspiros se voltam para um personagem. É verdade que Grey mora num apartamento de revista, é CEO de sua própria empresa e tem a cabeça cheia de problemas. Que mulher não gosta de um homem perturbado para chamar de seu e tentar consertar?

Mas o moço tem muito mais. Entre um tapinha na bunda aqui e um abuso psicológico acolá, ele cria muitas situações românticas e sedutoras, compra carro novo, escolhe roupas para a mocinha, paga suas contas, faz com que ela se sinta a mulher mais amada e desejada no quarteirão, protege a fofa das maldades da vida, menos das dele mesmo, claro.

Isso não significa que a questão seja dinheiro, ainda que seja preferível sofrer numa cobertura do que num quarto e sala. Mensagens carinhosas, presentinhos inesperados, flores sem motivo, jantarzinho romântico, um “papai&mamãe” olhando nos olhos, podem ser igualmente eficientes. Na ficção ou na vida real, com muito romantismo, você terá uma mulher de quatro para você. Ou por cima. Ou por baixo. De ladinho. Talvez ela até curta uns tapinhas. Mas isso é detalhe.

Publicado na GQ Brasil, em fevereiro de 2017

 

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
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