Netflix acaba com a vida sexual

CADE A ESPONTANEIDADE

A gente acha que dá para esperar o jantar, tirar a mesa, o Jornal Nacional. Ou chegar em casa, fechar a porta e apagar as luzes. Dá pra esperar porque hoje pode ser mais tarde ou até mesmo amanhã. Por um lado, é uma tranquilidade se relacionar com alguém por mais tempo. Por outro, é da nossa natureza se acostumar a fazer as coisas da mesma forma, inclusive o sexo.

Lembro de um namoradinho que dobrava a roupa antes de transar. Eu lá, pelada na cama, e ele dobrando as meias. Tenho certeza de que ele tinha vontade de juntar minha calcinha e meu sutiã jogados no chão e dobrar tudo direitinho. Imagine o nervoso que esse moço não passava. E a gente seguia uma rotina tranquila, que foi se revelando bem chata depois de um tempo.

Acontece com todo mundo, com casais, namorados e até o peguete de fim de semana. Sem perceber, começamos a seguir o que eu chamo de sexo protocolar. É sempre na hora de dormir, na cama, com meia luz, depois de um banho. A gente se esquece que sexo bom é sexo sujo. Sim, há um trocadilho nessa frase.

Tem que ter bastante sacanagem, acontecer sem hora marcada e às vezes nem dá tempo de tomar banho antes. Mas com o tempo, intimidade e maturidade é natural que a urgência deixe de ser urgente. E o tesão quase sempre é atropelado pela preguiça e pelo conforto.

Transar no quarto tem suas vantagens. Você sabe onde está o interruptor para apagar a luz, consegue achar a camisinha dentro na gaveta no escuro ou ir ao banheiro sem tropeçar no móveis. Transar antes de dormir também tem suas vantagens. É gozar e virar para o lado. E de manhã, então?! A gente pula da cama e já corre para o banho.

Mas e cadê a espontaneidade? Em minha tradicional enquete, a rotina não chega a ser uma reclamação, as mulheres inclusive fazem mea culpa de deixar a vida sexual cair no marasmo também. As comprometidas falam com saudosismo sobre sexo inesperado. De pegação no elevador, de sacanagem dentro do carro, de sexo no sofá no meio do filme.

Eu brinco que Netflix está acabando com a vida sexual das pessoas. A gente assiste cinco episódios seguidos de uma série e quando percebe estão os dois capotados no sofá. Quem tem energia para transar às 3h da manhã quando já está no estágio REM do sono?

A gente deixa de lado programas propícios à sacanagem sem hora marcada. A balada, o boteco, a soneca depois da praia, o escurinho do cinema. Quando foi que paramos de brincar de “mão naquilo e aquilo na mão”, enquanto Matt Damon tenta sobreviver em Perdido em Marte?

E encoxada na cozinha, na hora de lavar os pratos? Poucas coisas são melhores do que isso, mas já peguei expulsando meu marido porque queria terminar a louça. A gente mata o sexo espontâneo e nem percebe. Por causa de sono, de trabalho, de preguiça, de prioridades. Mas sexo deveria ser prioridade não apenas no começo de uma relação.

Quando nos damos conta temos que pensar em como apimentar uma transa. Nem sempre é esse o caso. Não precisamos comprar uma calcinha nova, ou comprar brinquedinhos, ou convidar uma anã asiática para fazer um ménage. Às vezes, tudo que a gente precisa é fazer tudo igual, mas diferente.

Transar na cama, mas não apenas na hora de dormir. Não esperar o filme acabar, a louça secar ou os filhos dormirem. Existe uma coisa chamada chave na porta e meus pais usavam muito. Meu marido comprou uma máquina de lavar louça para casa. Foi um recado. Eu já disse para ele que Netflix pode esperar.

Para revista GQ

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
Esse post foi publicado em Coisas do coração, Sem categoria e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Netflix acaba com a vida sexual

  1. fregodoy disse:

    Olá, Mariliz
    Sexo é como música. Tem hora que o jazz, por toda sua harmonia e melodia, satisfaz. Mas tem momentos onde o rock and roll se faz necessário. Contudo (e como músico posso dizer) o silêncio é a melhor companhia.
    Concordo plenamente com vc sobre o NETFLIX – produto enviado direto do DIABO. Não existe vida sexual que resita à tentação de ter uma temporada inteira à sua disposição. De qquer forma (ainda usando um paralelo musical) é sempre bom ouvirmos os velhos e bom clássicos dos anos 80, a disco do final dos 70 e uma deliciosa sinfonia romântica. É só saber o momento.
    Por vezes cabe a nós colocarmos o disco, mas num relacionamento longo, se a estação do rádio estiver na sintonia correta, sempre “nossa música” poderá tocar.
    Sugiro, de tempos em tempos, experimentar uma composição nova. Novos elementos, novos acordes, cadências rítmicas inusitadas podem trazer temperos exótico à sua criação. Vale a pena tentar. Sempre.
    O importante é se deixar levar pela imaginação. A música é um campo vasto e fértil. Explore-o.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s