Um relacionamento sério com o verão

Para Harper’s Bazaar

“Quando eu completar 60 anos, mudo para Maiorca e tomarei sol todos os dias sem protetor”, me disse um amigo dermatologista. Rimos. E me senti aliviada por não ser julgada pelo meu amor ao verão. Uma relação cultivada durantes anos, que foi colocada no paredão quando decretaram que o sol era vilão, e bronzeado, cafona.

banho de sol

Acabaram de uma hora para outra com o glamour da praia. Veio uma avalanche de guarda-sóis, barracas, chapéus, bonés, protetores e implantaram regras e horários de uma rigidez militar. Todo mundo começou a se esconder do sol, como se estar ali fosse pecado. Já me expus 15 minutos no sol das 9h, com bloqueador 100 e filtros UVA/UVB/UVC, agora só amanhã, recomendação do fabricante. Tem coisa mais sem chata do que gente assim?

Adeus marquinha de biquíni, bochechas rosadas, cabelos de surfista, brilho nos olhos. Adeus dias inteiros de sol, de mar, de mergulho, de ducha de água doce, de hidratante no cabelo, de Hipoglós no nariz, de almoçar milho cozido e sanduíche natural. A praia ficou mais careta e o verão mais sem graça.

Ainda bem que tem a turma do contra, aquela que conta os dias para os termômetros subirem, as roupas diminuírem, os sorrisos ficarem mais largos. Faço parte dessa tropa que guarda com orgulho na nécessaire um acelerador de bronzeado da Australian Gold. Para nós, a vida reserva o inesperado porque a gente vai onde o sol estiver. Pode ser em Caraíva ou na Tailândia. Pode ser na porta de casa ou do outro lado do mundo. Somos os seguidores do sol. E dessa forma, cada um vive seu frenesi particular. Cada um vive seus sonhos de dias e de noites de verão.

Ahhh, o verão. Os dias ficam mais longos. As noites ficam mais bonitas. As madrugadas ficam mais preguiçosas. O fim de semana fica mais comprido. A brisa fica mais quente. A água fica mais gelada. O céu fica mais estrelado. O vento fica mais preguiçoso. As árvores ficam mais frondosas. As flores ficam mais cheirosas. Os passarinhos ficam mais cantantes. As cigarras ficam mais barulhentas. É o cio.

O ar fica repleto de hormônios, feromônios e as melhores más intenções. O animais procriam, as pessoas namoram, se apaixonam, juram amor eterno. Tudo com data de validade. Cada amor de verão vem com selo de expiração porque amores de verão são feitos para durar o tempo de uma estação. São mais intensos e menos sérios. A gente só leva na bagagem a lembrança, que fica doce na memória. Lembro de um, de dois, de três, de todos os amores de verão. Todos inesquecíveis, todos desimportantes.

Ahhh, o verão. A bebida fica mais gelada. A comida fica mais leve. As frutas ficam mais coloridas. A geladeira fica mais alcoólica. As janelas ficam mais abertas. As cortinas ficam mais esvoaçantes. A cama fica mais fresca. A gente recebe mais visitas. E sai mais de casa. As ruas parecem mais alegres. A música fica mais alta. As pessoas dançam mais. Todo mundo parece ter mais vida.

Ahhh, o verão. Os cabelos ficam mais claros. Os olhos ficam mais sorridentes. O sorriso fica mais branco. A alma fica mais feliz. O corpo fica mais malemolente. A mente fica mais agitada. A cabeça fica mais despreocupada. Os beijos ficam mais doces. Os abraços ficam mais vibrantes. O guarda-roupa fica mais divertido. As roupas mais soltas. As saias mais curtas. Os decotes mais cavados. Os pés mais descalços.

Culpa do sol. O humor fica tinindo, o corpo fica mais relaxado, dormimos melhor, a pele fica mais bonita. Ainda que haja um culto à palidez, as branquelas que me perdoem, mas tomar sol é fundamental. Um corpo dourado é mais sexy, mais sensual, e eu quero. Nem aí para as manchinhas de sol. Sardas para mim são lembranças de verões felizes, que eu ostento sem remorso. Maiorca aos 60, sem protetor, me parece agora um belo sonho de verão eterno.

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
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