O Rio é o avesso do avesso

praia 2

Eu era a paulista mais carioca que meus amigos conheciam. Tinha a tal alma. E roupas coloridas. Conhecia caminhos, chamava os garçons pelo nome, tinha conta na barraca do Leandro no Posto 12 e quarto na casa dos amigos. Conseguia mesa no Jobi e pedia o sanduíche do Pedrinho, que não está no cardápio. Tomava cerveja sentada no meio fio da calçada do Bar do Mineiro, em Santa Tereza.

Colecionei amores cariocas e passagens parceladas na ponte aérea. Tinha poltrona quase cativa, 8F, no lado direito da asa para ver lá de cima a cidade chegando. Cantarolava baixinho ‘minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade…”. Descia do avião e aterrissava na rasteirinha. A mala estava sempre pronta, com uma nécessaire exclusiva para o balneário.

Você ainda vem morar aqui, profetizavam alguns. Eu ria. Estava feliz com o romance à distancia. Amava o Rio, contava os dias para comer biscoito Globo e tomar mate de galão de café da manhã, com os pés na areia. Só quem nasce por aqui toma mate de galão, metade mate, metade limão. Me sentia local e nosso caso só ficava mais sério. Mas minha vida era em São Paulo.

Então, o destino, ou seja lá o que for, vem e muda tudo sem aviso prévio. Em um mês abria caixas num cubículo no Leblon, que custava o dobro do que eu pagava pra morar num lugar três vezes maior. E foste um difícil começo, dizia Caetano, pra mim que vinha de outro sonho feliz de cidade. Aprendi depressa a chamar-te realidade. Porque no dia a dia o Rio é o avesso do avesso do avesso do avesso.

Para mim e pra todo mundo que repete que a vida é curta demais para não morar no errejota, a realidade é diferente do sonho. O despertador da rotina atropela a ginga do fim de semana. E você entende na marra a escritora americana Elizabeth Bishop quando disse que o Rio não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade. E tem todos os problemas e mais outros que um lugar menos abençoado e menos bonito por natureza.

Me transformei na chata de galocha que reclama do encanador que não aparece, da informalidade, da insegurança, das praias poluídas, dos canais fedorentos, das bitucas de cigarro na areia, das ruas esburacadas, das pessoas eternamente atrasadas, do serviço ruim e caro, dos taxistas kamikazes, da malandragem, do funk, do caos no trânsito, de tudo que vira samba. Só não vê quem não quer.

Mas você se dá conta que só enxerga o copo meio vazio, que dá para ter um olhar crítico sem deixar de apreciar a paisagem. Que o habitual e invariável do cotidiano pode massacrar a relação com qualquer cidade. Que tem gente que reclama de Nova York, de Paris, de Roma. Dura demais, os franceses são insuportáveis, a Itália está decadente. A gente é mestre na arte de desdenhar do que temos.
Foi quando resolvi fazer as pazes com o lugar onde vivo.

Morar aqui é uma merda, mas é bom, disse Tom Jobim sobre o Brasil. Vale o mesmo para o Rio. Não é tapar a realidade com a viseira, mas encará-la de um jeito mais juvenil. Festejar tudo o que há de bom ao redor, seja em São Paulo, em Salvador, em Londres ou em Singapura.

Comecei a viver a cidade de uma forma sempre nova, ir a lugares que não conheço, em que preciso aprender o caminho para chegar, onde não sei o nome do garçom, se aceita cartão ou só dinheiro. Mudei de praia, fiz novos amigos, passei a ter um olhar mais estrangeiro, como se estivesse apenas de passagem. A gente não sabe o dia de amanhã. Só sei que se um dia não estiver mais aqui, quero sentir saudade do que o Rio tem de bom. E tem muita coisa.

Deveria ser assim com tudo na vida.

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
Esse post foi publicado em Coisas da vida e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para O Rio é o avesso do avesso

  1. Amauri Ernani disse:

    É isso! Por isso que gosto tanto dos seus textos. Você têm a alma estrangeira que aprendeu a amar de verdade essa linda cidade, com seus problemas e essa “doce” realidade – que um dia, espero que seja breve – voltarei a sentir e pulsar de perto…

  2. Henrique disse:

    Adorei. Assim fica fácil gostar do Rio. Abraços.

  3. Roberto Alves disse:

    Depois que eu li o seu texto: A incrível geração das mulheres chatas, virei fã! E cada vez que escreve algo, acabo me surpreendendo e muitas vezes me identificando, como nesta coluna! Parabéns!

  4. Jenyelle Biancolini disse:

    Perfeito! Passei exatamente por isso… mas já saí de Errejota, e penso todas as semanas, porque não curti a praia do Recreio um pouco mais, porque não abusei do biscoito Globo, porque não dancei mais o “insuportável” funk, saudades eternas das rasteirinhas e das Havaianas diárias. Saudades de toda essa displicência carioca, do jeito extremamente leve de se viver. Mas, enquanto estive no Rio, meu lado “chato” Pontagrossense e Paranaense de ser certinha não me permitiu curtir e ser feliz. Aproveite enquanto dá tempo!!!!!!!! Bjo….

  5. Marcos Costa disse:

    Viva o Rio! Viva Mariliz!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s