Mudaram as estações

picnic

Tudo dependia da data, tinha apenas que ser a data certa. Até o hotel poderia ser o errado, mas a data, não. Programei minuciosamente o dia da viagem por uma única razão: queria chegar ao Japão na época da sakura, como é chamado o florescer das cerejeiras. Não entendo nada de flores, mal consigo manter meus vasinhos de temperos. O manjericão sempre amarela, a hortelão queima, a pimenta murcha. Nem é falta de cuidado, me falta jeito. Mas tenho uma fascinação tão grande pela mudança das estações, e não queria perder o símbolo da chegada da primavera lá do outro lado do mundo.

Mudam as estações, mudo eu. Não é a simples alternância de quente ou frio, de pedir vinho ou cerveja, de levar um agasalho ou não. Tudo se transforma a nossa volta. E eu posso ser diferente sendo eu mesma apenas porque a temperatura despencou ou está de rachar. É bom mudar, porque a gente enjoa da vida quando ela fica muito igual e cansa da gente mesmo.

Canso do meu cabelo, das roupas que visto, da bolsa que anda pendurada no meu ombro todos os dias. Enjôo dos meus caminhos, do sabor da comida, da mesma embriaguez da mesma bebida. Quero sentir frio, depois calor, para depois sentir frio de novo. Para nunca me acomodar, nem com a vida lá fora nem com a vida dentro de mim.

Gosto dos dias mais curtos, de ver as folhas caindo e o pôr do sol mudar de cor. Gosto de banho pelando, toalhas fofinhas, cama cheia de travesseiros, bolsa de água quente, aquecedor, de puxar a manta no meio da madrugada, meias de cashmere, camadas de roupas, luvas, cachecol, galocha no pé, xícara de chá na mão. O ar quente no carro, a lareira no fim de semana. Quero ficar mais em casa, não sair do sofá, dormir no meio do filme, tomar chocolate com conhaque. Não quero ter a obrigação de ir lá fora ser feliz. Está bom aqui dentro quando consigo olhar mais pra dentro de mim mesma. Quero que a vida desacelere do lado de fora e dentro da minha alma.

E, então, muda tudo de novo. Muda o tempo, mudo eu.

Quando a gente já se acostumou, a vida nos chama para a vida. Desentoca, chega de preguiça. Hora de sair da cama, de casa, de sorrir para o mundo. Desde sempre, setembro é um dos meus meses favoritos. Gosto de saber que o verão está chegando, mas ainda ter tempo de me preparar para ele. Quero meus vestidos, minhas rasteirinhas, minhas sandálias de salto, minha roupas mais alegres. Quero cortar o cabelo, fazer luzes, iluminar meus dias. Quero colocar uma colcha colorida na cama. Quero ver as árvores dando flores, e encher a minha casa delas. Chegar à praia de manhã e só ir embora junto com o sol. Estocar espumantes na geladeira, preparar spritz.

Quando desembarquei no Japão, as flores já tinham caído. Levei uma rasteira da primavera, que resolveu desabrochar uma semana antes. Não dá para controlar tudo, mesmo quando a gente se programa, pensa em todos os detalhes. “Go with the flow, live your life in the flow”, li num biscoito chinês certa vez. Hoje, nem sei se gosto mais de verão ou de inverno, há muito tempo deixei de lutar contra a natureza – inclusive a minha. É dizer não para a vida como ela é. E ela é bem boa se a gente aceita melhor as mudanças dela e as que acontecem com a gente.

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
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2 respostas para Mudaram as estações

  1. Amauri Ernani disse:

    Ser é sentir o mundo em mutação fora e dentro de nós. Belo texto, Mariliz , e como sempre, cheio de poesia e encanto.

  2. Jacquiline disse:

    Você é TOP, posso até te chamar de “minha” psicologa…obrigada pelos maravilhosos textos.

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