E a Nespresso vai para…

Eu recebi seis relatos para o concurso cultural COMO SUPEREI UMA TRAIÇÃO.

A vencedora pediu para não ter o nome revelado. E a comissão julgadora, eu, achou que não é um problema. Gostaria de agradecer todo mundo que compartilhou o post e mais ainda quem abriu sua vida, seu coração e dividiu a história comigo. Em breve, a Nespresso terá um novo lar. E eu espero que a dona tenha um vida bem feliz longe do babaca que aprontou com ela.

A seguir, a vencedora.

A Campainha de Manhã Cedo Pós Balada

PORTA

Era um namoro de quatro anos, intenso, cúmplice e sem traições aparentes. Já envolvia até as mais antigas gerações das duas famílias, desde o almoço de todo santo domingo até a visita do avô doente. Mas por alguma razão andava morninho, morninho. Depois de uns quinze dias sem nos vermos todo dia, resolvemos fazer a prova dos nove. Ver se ainda tinha paixão, se tinha amor. Eu com vinte e poucos anos. Ele, ao redor dos trinta.

Baladinha sábado a noite, aniversário de um amigo em comum. Ótimo! Aquela excitação de escolher a roupa, o perfume, antecipar os primeiros assuntos para os primeiros papos de retorno. Muito o que contar, falei das minhas novidades na pós graduação. Ele falou que finalmente havia alugado um apartamento e saído da casa da mãe. Ufa, pensei eu. Um bom começo para pequenas coisas que incomodavam nosso dia a dia.

Balada super agitada, dançamos, bebemos, conversamos, clima de romance total. Altas horas da madrugada resolvemos ir embora e passar a noite juntos no apartamento dele. Sabe aquela volta da balada que o cansaço é tanto que você já entra tirando e esparramando as roupas pelo chão da sala e nem tira a maquiagem? Pois então. Namoramos e .. sono … daqueles profundos, de Branca de Neve.

No nível profundo daquele sono gostoso escuto a campainha tocando uma vez. E pela segunda vez. Ai aos poucos vou me recuperando e entendendo onde eu estava, com quem eu estava, que horas ainda eram… meu namorado então me abraça mais forte e voltamos a dormir… que manhã perfeita eu pensei… Me aconcheguei nos braços e lá fui eu dormir mais um pouquinho.

A campainha toca de novo. E eu começo a achar estranho. Espero uns segundos, finjo que quero me levantar para ir ao banheiro e meu namorado me solta do abraço de urso. Ao invés de ir ao banheiro, vou em direção à porta de entrada. Cabelo todo bagunçado, cara amassada e vestindo só uma camiseta. Maquiagem… não quero nem pensar como estava. Escuto uma voz feminina do outro lado da porta chamando meu namorado por um apelido que só a irmã dele chamava.

Espera um minuto. Esta voz não era da irmã dele. Abrir ou não abrir a porta?? Abri. Dei de cara com uma mulher que eu nunca tinha visto na vida. Respirei fundo, tirei uma serenidade lá da ponta do pé esquerdo e fiz menção para ela entrar. Naqueles dois segundos já percebi quem ela era. E quem eu era.

Nesses mesmos dois segundos meu namorado já estava na sala, vestido e compartilhando esse momento lindo. Só que não, momento mega estranho. Para todos os três seres que habitavam aquela sala toda arrumadinha.

A menina pedia explicação, o cara já nem lembro se ele queria explicar ou se dizia que não tinha explicação. Eu, de novo com uma fineza e elegância de barata, comecei a juntar minhas roupas do chão. Quase tive que pedir licença à menina que estava prestes à pisar no meu sutiã. Cena de novela. Vesti a roupa, não quis nem olhar no espelho para não ver a cara de pós-balada-recém chifrada que eu estava. Catei minha bolsa e fui porta à fora, cabeça empinada. Já tinha a resposta que eu precisava para meu relacionamento.

Todas aquelas cenas de cinema em que a pessoa aperta apressadamente o botão do elevador achando que quanto mais apertar, mais rápido ele vem, passaram pela minha cabeça. Resolvi descer as escadas, e a medida que os degraus ficavam para trás, lembrei que ele havia comentado que aos finais de semana não havia porteiro. Como eu iria sair do prédio então se a porta estaria trancada à chave? Ah, um santo vizinho iria estar saindo naquelas exatas sete horas da manhã de um sábado para comprar pão para o café, eu pensei. Só que não.

Então escuto passos atrás, é o cara, o namorado, ou ex-namorado, sei lá, com a chave na mão dizendo: “Eu te levo até em casa, esta hora vai ser difícil achar táxi por aqui”. Oi? Me leva até em casa para quê, cara pálida? Olhei para os lados, rua deserta, nem os passarinhos tinham acordado. E nada de um carro passar naquela hora. Decidi pela carona, acredita?

A elegância da barata fina ficou para trás e comecei a enfurecer, xingar, perguntar o porquê de simplesmente ele não ter dito que não queria mais… Rodei a baiana dentro do carro, esmurrei o vidro para não esmurrar a pessoa ao meu lado, senti dor na mão, senti dor na alma, cansei de brigar, não valia mais à pena. Fizemos silêncio de cemitério até em casa.

Fechei a porta do carro com tanta força jurando que queria que todo o carro se desmontasse como nos desenhos animados. Não liguei mais, não quis saber mais. Em um mês eu já estava morando em um apartamento alugado, (mais) loira, (mais) lisa, com amigas maravilhosas e arrasando na night. Dias depois ele me liga para conversar. Conversamos. 15 minutos no máximo. Na porta do prédio do meu apartamento novo, quase na calçada. Eu lá, toda confiante e linda. E ele, todo chateado me pedindo desculpas.

Do alto da superioridade e da minha autoconfiança disse, com elegância e serenidade, que eu o desculpava e que deveria seguir o caminho dele. E que o que a gente viveu era coisa do passado. Ele, cabisbaixo, seguiu seu caminho sem olhar para trás. E eu segui meu caminho só olhando para frente.

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
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