Isso está me cheirando traição

PERFUME

Todo mundo já levou um chifre. Talvez não saiba, mas já levou. O meu teve requintes de crueldade. E ao contrário do que dizem, que a gente melhora depois que é corno, acho que fiquei pior. Gato escaldado.

Outro dia, olhando dentro do armário do banheiro, que fica embaixo da pia, estavam todos os meus perfumes preferidos. Adoro experimentar o que tem de novo, mas tem aqueles que entra ano, sai ano, entra namorado novo ou sai namorado velho, estão lá firmes e fortes.

Cada um deles guarda um monte de lembrança. A maioria é boa, feliz, alegre. Dos favoritos tem alguns que eu não uso mais, mas ainda assim mantenho um frasco para matar a saudade de alguma época. O Thaty, do Boticário, usei até não aguentar mais na minha adolescência. Só a visão daquele vidro transparente com o líquido azul é capaz de mudar o meu humor de “apática” para “feliz da vida”.

Tudo que tem ali naquele armário me faz lembrar que a vida tem sido camarada, menos um deles. Um perfume que não consigo me livrar por pior que sejam as lembranças que ele me traz. Então, nesse dia, em que estava olhando dentro do armário, sentei no chão do banheiro e me perguntei por quê.

Viagem de férias dos sonhos: uma semana em Londres, uma em Paris e para encerrar uma em Nova York. Listinhas de lugares para visitar, passear, comer, beber. E uma de compras, pesquisada com carinho em revistas gringas para trazer na mala o novo do novo, aquilo que ainda levaria um tempo para achar por aqui. Ué, eu gosto de alguma exclusividade, mesmo que ela dure pouco tempo. Isso, obviamente, não vale para namorado – quero exclusividade e ponto.

Na minha agenda, um recorte do anúncio do primeiro perfume feminino da Hugo Boss, o Orange. Aquela página perfumada com a amostra grátis, arrancada da revista e guardada para não esquecer. Sienna Miller, linda e loira, na propaganda. E se não posso ser tão linda ou tão loira quanto Sienna, posso, ao menos, ter o mesmo cheiro dela, eu pensava.

Londres, Paris, Nova York. O que poderia dar errado? Bem, eu poderia, por exemplo, descobrir, em Paris, que o meu namorado tinha deixado de ser minha exclusividade muito tempo antes da época que fiquei cuidando dele, que se recuperava de uma cirurgia de hemorroidas. Tudo que é trágico pode ser ainda patético.

Sem conseguir comer ou dormir e com vontade de matar alguém, desembarquei em Nova York. A lista ficou amassada no fundo da bolsa. Sei que tem gente que com um cartão de crédito e uma Nova York sob os pés esqueceria um chifre em segundos. Descobri que não há voltinha em loja alguma que cole um coração partido. Ou orgulho ferido – que era mais o meu caso naquele caso.

Não comprei quase nada, além de uma cafeteira, que eu tenho vontade de jogar pela janela até hoje. O namorado, o mesmo, aquele que tinha colocado um fim aos meus sonhos de brincar de casinha, aquele que tinha arrasado com as minhas férias e xoxado a minha vontade de fazer compras, veio dar palpite na compra da MINHA cafeteira. E me fez economizar – do MEU dinheiro – 50 dólares e comprar uma Nespresso que não é automática.

Um dia antes de voltar ao Brasil, passando em frente a uma loja de perfumes, resolvi entrar. E lembrei do Hugo Boss e da Sienna Miller.

Aeroporto, nove horas de voo, taxi, casa. No dia seguinte fui trabalhar e à noite, em casa, já deitada na cama, consegui falar: “quero que você vá embora”. Quando acordei na manhã seguinte, ele não estava lá. Tomei banho, me vesti e pensei que era um ótimo dia para estrear o meu Hugo Boss.

Esse filme todo passa em segundos quando uso o perfume. É engraçado, não me sinto triste. Me sinto aliviada. Não era para dar certo. O perfume me lembra disso. E do chifre. E de Sienna, que também levou um chifre e hoje está feliz da vida. Como eu.

Siga a página do blog no Facebook https://www.facebook.com/mpjota

Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, da revista GQ, roteirista de TV e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
Esse post foi publicado em Coisas do coração e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

12 respostas para Isso está me cheirando traição

  1. Vanessa Taques Correia Mello disse:

    E viva os perfumes que passaram pela nossa vida!

  2. Elaine disse:

    a sensação de uma faca no coração define.

  3. Em 2001, estava noiva e levei um chifre do tamanho do mundo, me arrastei por meses. E, hoje, vejo que foi a melhor coisa q me aconteceu…sou muito feliz com o Branco!

  4. Helô Gomyde disse:

    Eu era apaixonada por um cara que usava Issey Miyake. Nos remotos tempos de 1997, poucos conheciam este perfume. Era um namoro de um ano, quando eu ainda tinha menos de 20. Parecia homem da vida, sabe? Pois levei um pé na bunda sutil, daqueles que você percebe apenas pela falta de telefonemas. Minha primeira providência para evitar a recaída.foi gastar muuuuito dinheiro para mim na época — 200 reais! –em um vidro de Issey Miyake masculino e passar a usar como se fosse o meu cheiro. Não queria chorar toda vez que sentisse a fragrância em outra pessoa ou, pior, quando reencontrasse com o dito-cujo. Virou meu perfume por anos. E guardo o frasco como prêmio pela minha sabedoria. Não vai ser um cheirinho que vai me derrubar…

    • Mônica K. Guedes disse:

      Me identifiquei com o seu artigo, Mariliz. Muito bom. Melhor ainda é esta coragem – a força para tirar da nossa vida o que nos faz tão mal. O chifre nunca vem sozinho, vem acompanhado de mentiras. E vem daquela pessoa que dorme ao seu lado todos os dias. Tenho 38 anos e dois filhos. O meu mais novo tem apenas 3 aninhos e meio. Infelizmente, não foi a primeira descoberta de infidelidade. A primeira eu consegui “reconsiderar”, embora eu nunca tenha perdoado de fato. Mas, pelos filhos, aquela história… Fui tentando esquecer (na ilusão de que esquecemos um chifre, com ou sem NY!). O problema é carregar essa decepção dentro do peito, no coração ferido. Na segunda traição, fui ao fundo do poço de tanta decepção. Achei que o meu marido teria aprendido a me respeitar, pelos nossos filhos e pelo sofrimento que eu passara anos antes. Eu estava enganada. Peguei outra mulher na vida dele e, por trás disso, mais e mais mentiras. Sem contar as vezes que ele deve ter me chifrado sem que eu tenha descoberto. Como você disse em seu texto, eu quero exclusividade. Achei que eu fosse morrer de tanta raiva e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, que eu não conseguiria viver sem o meu marido. Eu tinha uma vida confortável, um ótimo pai para meus filhos e estava acomodada. Depois da segunda vez, resolvi ter força, amor próprio, e lembrei dos anos de desconfiança e angústia que eu passava. Não queria mais essa “prisão” no meu próprio lar. Da mesma maneira que você, um belo dia acordei sem ele ao meu lado e senti um alívio enorme por não conviver mais com aquela pessoa que eu não confiava – e jamais conseguiria confiar novamente. Eu também consegui dizer “quero que você vá embora”. Disse a mim mesma: “Se ele não me respeita, eu me respeito”. Como a amiga escreveu no post acima, um cheirinho não vai me derrubar, e, completando, muito menos um chifre vai me derrubar. Vida nova!!! Hoje sou muito feliz, pois tive dignidade e coragem. O destino me presenteou com um novo e VERDADEIRO amor… Foi quem juntou os pedacinhos do meu coração partido. A tristeza passa, mas aquele chifre jamais passaria em branco. Ninguém merece e nem deve aceitar uma infidelidade, essa é a minha opinião. Concordo, não era pra dar certo. Parabéns pelo artigo.

      • Jéssica disse:

        A traição é um assunto que abala qualquer relacionamento. Uma vez perdida a confiança dessa forma, jamais confiaremos em nosso parceiro novamente. Existem muitos homens honestos, em quem podemos confiar. Conheço muita gente segura e, portanto, feliz em seus casamentos. Nos dias de hoje, não há nada que me faça ficar em um relacionamento onde não há mais confiança. E viva as mulheres fortes e decididas!

  5. Bruna disse:

    Faca no coração E nas costas definem! (Completando um dos comentários acima)

  6. Agnes disse:

    Acabei de conhecer o blog!!! É incrível, Alguns cheiros sempre serão eternos…Sempre quando sinto um específico( infelizmente nao me recordo o nome) lembro como foi bom nao ter dado certo!

  7. adorei esse escrito….me fez lembrar meus perfumes e histórias…..porque sem hipocrisia já fiz os dois papéis….o da taída….e a que traiu….é a vida!

  8. Gracielle disse:

    Este é o meu perfume, que me lembra uma fase diferente pela qual passei, quando foi adquirido num navio pelo Mediterrâneo. Adorei!

  9. Karina B. disse:

    Ai,que a gente vê, até Sienna linda, toma chifre…..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s